Possíveis impactos do protecionismo global no setor de químicos e cloro-álcalis brasileiro

Passados dois meses desde o início do governo Trump nos EUA, muito se tem discutido sobre os efeitos da nova administração no comércio internacional. De fato, há uma percepção de que está havendo uma ruptura do então modelo, de um mundo globalizado para um modelo baseado em um protecionismo das economias nacionais, não por coincidência expresso no principal mote da campanha vitoriosa do país de maior economia do mundo[1].
O regime de taxação para os produtos químicos brasileiros importados, fator de extrema importância para contexto do atual cenário, varia conforme a sua classificação NCM (nomenclatura comum Mercosul), que por sua vez reflete o grau de proteção que se queira dar a um determinado item, se há produção nacional, por exemplo. Convém lembrar que essa taxa de importação é seletiva, podendo variar de acordo com a origem, devido a acordos comerciais entre países ou blocos econômicos.
O déficit na balança comercial brasileira de produtos químicos em 2024[2] foi de US$ 48.7 bilhões, sendo US$ 18.1 bilhões relativo às importações da Ásia, US$ 12.7 bilhões da União Europeia, US$ 8.0 bilhões da América do Norte e US$ 11.4 bilhões do resto do planeta.
Com o foco voltado agora para soda cáustica e, segundo os dados da Abiclor (Associação Brasileira da Indústria de Cloro-Álcalis) e do Siscomex, em 2023 o Brasil mostrou um consumo aparente de 2.61 milhões de toneladas de soda cáustica (base seca), sendo que 44,2% oriundo da produção nacional e 55,8% importado. Historicamente, essa proporção do produto importado foi por volta dos 39% durante o biênio 2015-2016, aumentou para 50% em 2017-2018 e a partir de 2019 subiu para o patamar de 60%, atingindo o pico de 66% em 2020, devido à paralisação, por muitos meses, de um importante fabricante nacional. De qualquer forma, e de modo análogo ao mercado químico como um todo, há uma crescente desnacionalização do setor, lembrando que uma nova planta requere um grande aporte de capital, além de um ótimo projeto de negócios que permita sustentabilidade comercial tanto do lado da soda como do lado do cloro.
Diretamente relacionado ao entendimento do setor de cloro-álcalis é a análise da origem das importações de soda cáustica para o Brasil. Cerca de 85 a 90%, dependendo do ano, vem dos Estados Unidos, o que torna este país um fornecedor crucial para a indústria brasileira, já que estamos falando de aproximadamente metade do consumo nacional. Existem justificativas que explicam essa predominância, mas antes é necessário entender qual é o perfil do importador. O maior volume das importações se destina à produção de alumina, cujas principais plantas estão localizadas na região norte ou nordeste, na costa Atlântica, que proporciona uma vantagem logística para importações dos EUA, que partem dos inúmeros terminais no Golfo do México, não precisando atravessar o canal do Panamá (diferentemente para os destinos localizados na costa do Pacífico). Alguns fabricantes de celulose também utilizam esta rota e estes dois segmentos têm em comum o fato de serem grandes exportadores, no que resulta em vantagens fiscais com a isenção do imposto de importação, entre outros. Um outro perfil de importador é o de médios consumidores finais ou então distribuidores ou traders, que trazem a soda cáustica para revender no mercado interno. Este importador geralmente não tem benefício fiscal. Atualmente a taxa de importação para a soda caustica é de 7.2%.
A balança comercial entre o Brasil e o EUA é relativamente equilibrada, com importações e exportações reportadas em 2024 da ordem de US$ 40 bilhões, segundo o monitor do comércio recentemente publicado pela Câmara de Comércio Brasil-EUA (Amcham). O Brasil não seria em tese um alvo preferencial das medidas do novo governo americano, e no setor de químicos menos ainda, já que o Brasil importa muito mais do que exporta, gerando um déficit setorial da ordem de US$ 1,5 bilhões[3]. Mas de todas as maneiras, cabe um alerta que o Brasil depende demais da soda cáustica americana, e que se uma guerra comercial respingar neste setor, poderá produzir grandes desequilíbrios na competitividade brasileira, notadamente no setor de alumina e de celulose.
[1] Segundo previsão do FMI para 2025, os EUA lideram a economia global com um PIB nominal de US$ 30.3 trilhões, seguindo da China com US$ 19.5 trilhões, a Alemanha com US$ 4.9 trilhões. O Brasil aparece em 10º lugar, com PIB nominal de US$ 2.3 trilhões.
[2] Relatório de Avaliação Conjuntural (RAC), Abiquim, Janeiro de 2025.
[3] https://www.nexojornal.com.br/grafico/2025/01/30/relacao-comercial-brasil-eua-exportacoes