Multas por enxofre em Kashagan expõem erro de cálculo das petroleiras em um mercado global mais restrito
O Cazaquistão manteve, em janeiro de 2026, a multa equivalente a US$ 4,7 bilhões aplicada à North Caspian Operating Company (NCOC) por violação das normas ambientais de armazenamento de enxofre no campo de Kashagan. A penalidade refere-se ao acúmulo de 1,75 milhão de toneladas de enxofre sólido, volume 140% superior ao limite legal de 730 mil toneladas definido pelo Código Ambiental vigente desde 2021. O tribunal de Astana rejeitou o recurso da operadora, que ainda pode recorrer.
A origem do passivo remonta ao período pós-retomada da produção em 2016, quando o enxofre extraído do petróleo passou a ser estocado em blocos a céu aberto. Embora a NCOC sustentasse possuir licenças válidas, documentos internos indicam que os parceiros do consórcio — liderados por Eni e Shell — reconheciam, desde 2017, que o crescimento contínuo dos estoques criaria exposição regulatória relevante. Em 2019, análises internas já estimavam multas entre US$ 1.700 e US$ 3.500 por tonelada, considerando volumes próximos de 1,3 milhão de toneladas.
O fator decisivo para a inação foi econômico. A alternativa técnica de processar o enxofre e direcioná-lo ao mercado internacional foi avaliada, mas rejeitada por parte dos sócios do projeto por gerar retorno líquido negativo. Essa decisão ignorou mudanças estruturais no mercado global de enxofre, especialmente a partir da redução da oferta russa. Desde o agravamento dos conflitos no Leste Europeu, a Rússia registrou perdas relevantes de capacidade em unidades de processamento de petróleo e gás, restringindo exportações e elevando preços internacionais do enxofre.
Esse aperto de oferta alterou o equilíbrio global do mercado justamente no período em que Kashagan ampliava seus volumes estocados. A menor disponibilidade russa reduziu a flexibilidade logística e comercial do consórcio, encarecendo rotas alternativas e ampliando o custo de uma eventual solução tardia. Assim, o que havia sido classificado internamente como perda operacional tornou-se, na prática, um passivo regulatório de grande escala.
A China entra como elemento complementar desse cenário. Em 2025, o país reduziu volumes importados de enxofre, mas registrou alta expressiva no preço médio de importação, refletindo o aperto global de oferta. Ao mesmo tempo, a demanda chinesa seguiu sustentada pelos setores de fertilizantes fosfatados e refino de níquel. Esse movimento limitou a capacidade de absorção de excedentes globais a preços marginais, reduzindo ainda mais a viabilidade econômica de escoar rapidamente o enxofre acumulado em Kashagan.
O contencioso ambiental ganhou tração adicional em janeiro de 2026, quando medições oficiais em Atyrau apontaram concentrações de sulfeto de hidrogênio até 36 vezes acima dos limites máximos permitidos em áreas residenciais próximas a instalações industriais. Embora a refinaria local tenha contestado a origem das emissões, os dados reforçaram o argumento do governo de que o armazenamento prolongado de enxofre representa risco ambiental mensurável e recorrente.
A manutenção das multas ambientais no Cazaquistão retira volumes potenciais de enxofre do mercado internacional, reforça o aperto global de oferta já pressionado pela redução das exportações russas e pela demanda asiática, e, no Brasil, eleva o custo de importação e aumenta a dependência de origens do Oriente Médio e dos Estados Unidos, pressionando cadeias como a do ácido sulfúrico.
Autoral GlobalKem | 05 de fevereiro de 2026