Mercado

Escalada russa no setor energético acelera plano ucraniano de importar GNL dos EUA via Grécia

O governo ucraniano confirmou que iniciará, entre dezembro e janeiro, a importação de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos utilizando a rota grega conectada ao gasoduto Trans-Balkan. A medida torna-se decisiva após uma nova série de ataques russos contra subestações, usinas térmicas e estações de bombeamento de gás, incluindo a instalação de Novosilske, ponto estratégico que recebe volumes pelos terminais gregos e turcos. Os ataques somam quase 3.000 incidentes desde o início do ano, afetando diretamente a capacidade de geração e a produção doméstica de gás.

A intensificação das ofensivas ocorre em um momento crítico. Modelos climáticos indicam início de inverno ameno seguido de janeiro e fevereiro mais severos, período em que o Kremlin historicamente busca explorar a vulnerabilidade energética ucraniana. Neste verão, a Rússia lançou os maiores ataques da guerra — mais de 500 drones e mísseis em um único dia — mirando especificamente redes elétricas, usinas a carvão e sistemas de transporte de gás usados na preparação para a estação de aquecimento. A ofensiva recente contra a interconexão de Orlovka, na fronteira com a Romênia, atingiu diretamente a rota destinada aos novos fluxos de GNL dos EUA e aos testes de volumes provenientes do Azerbaijão.

Em resposta, a União Europeia e parceiros regionais destinaram novos fundos para a importação emergencial de gás, restauração de transformadores, substituição de geradores e reforço das ligações elétricas cruzadas já integradas à rede continental desde 2022. A Ucrânia reservou cerca de € 2 bilhões para financiar as importações durante o período de dezembro a março, utilizando garantias da Comissão Europeia e linhas de crédito domésticas. A Grécia, por sua vez, expande terminais e contratos de GNL e assume posição de hub regional ao ligar seu sistema ao Trans-Balkan, caminho que também permite acesso a gás azerbaijano e volumes futuros da rota do Mar Negro.

A deterioração do ambiente diplomático reforça o peso estratégico do acordo energético. Tentativas de negociação envolvendo Estados Unidos, Europa e Rússia não produziram avanços, e os ataques de alta escala realizados após as cúpulas são interpretados como sinal de que Moscou pretende utilizar o inverno para degradar a capacidade de resistência ucraniana. Além disso, a destruição contínua de infraestrutura civil amplia a dependência de importações e pressiona a logística europeia de GNL, justamente quando o bloco avança para eliminar totalmente o gás russo até 2027.

O abastecimento emergencial via Grécia reduz o impacto direto dos bombardeios na produção interna e permite que Kiev mantenha estoques mínimos para residências, hospitais e centros de aquecimento. A rota Trans-Balkan, antes construída para transportar gás russo em direção ao sul, agora opera em fluxo reverso e passa a ter papel estruturante na segurança energética da Ucrânia durante a estação mais crítica do ano.

Com a demanda global de gás dos Estados Unidos projetada para aumentar até 19% até 2030, impulsionada por exportações de GNL e pelo crescimento do setor de energia, a participação norte-americana nas rotas europeias tende a ganhar relevância. O reforço de oferta ao Leste Europeu durante o inverno integra esse movimento, ampliando o peso dos EUA nas cadeias internacionais de abastecimento.

A chegada do GNL norte-americano à Ucrânia, portanto, representa não apenas um mecanismo emergencial para o inverno, mas uma alteração estrutural na matriz energética regional, com efeitos diretos na segurança do abastecimento ucraniano e na estratégia de diversificação da União Europeia.

Autoral GlobalKem | 19 de novembro de 2025

Etiquetas
Mostrar mais
Botão Voltar ao topo
Fechar