A deterioração recente do ambiente geopolítico no Golfo tem origem no colapso das negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o futuro do programa nuclear iraniano e o regime de sanções econômicas. As conversas, retomadas de forma indireta nas últimas semanas, chegaram a um ponto de estagnação após divergências estruturais: Washington passou a exigir um acordo mais amplo, que inclua limites permanentes ao enriquecimento nuclear e restrições ao programa de mísseis iraniano, enquanto Teerã manteve como condição central o levantamento das sanções e defendeu que seu programa nuclear possui finalidade energética e civil legítima.
Esse desalinhamento não é novo, mas ganhou intensidade no início de 2026, quando a Casa Branca passou a adotar uma postura mais assertiva, combinando pressão diplomática com demonstrações explícitas de força militar. O governo americano passou a sinalizar publicamente que prefere uma solução negociada, mas deixou claro que considera alternativas caso não haja avanço concreto em curto espaço de tempo. Do lado iraniano, a liderança política e militar interpretou a ampliação das exigências americanas como tentativa de impor termos unilaterais, reforçando o discurso de soberania e dissuasão.
A escalada ganhou um componente operacional relevante na segunda-feira (16/02), quando a Guarda Revolucionária Islâmica iniciou exercícios militares no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais sensíveis do mundo. Poucos dias depois, partes do estreito foram temporariamente fechadas para manobras conjuntas entre Irã, Rússia e China, com uso de munição real. A escolha do local não é casual: o Estreito de Ormuz conecta o Golfo ao Oceano Índico e concentra uma parcela expressiva do fluxo marítimo global de energia, sendo historicamente utilizado pelo Irã como instrumento de sinalização estratégica em momentos de tensão.
Paralelamente, os Estados Unidos responderam com uma ampliação significativa de sua presença militar no Oriente Médio. O envio de grupos de ataque liderados por porta-aviões, além do reforço de destróieres, aeronaves de combate e ativos de vigilância, configurou a maior mobilização americana na região desde a Guerra do Iraque. Essa movimentação tem dois objetivos claros: elevar o custo de qualquer ação iraniana contra interesses americanos ou aliados e aumentar o poder de barganha de Washington nas negociações, criando um ambiente de pressão máxima.
Outros atores regionais também foram rapidamente envolvidos. Arábia Saudita e Iraque elevaram seus níveis de alerta, diante do risco de que um confronto direto entre EUA e Irã se desdobre em ataques cruzados ou ações indiretas por meio de grupos aliados. Países europeus e outras potências ocidentais passaram a orientar seus cidadãos a deixarem áreas sensíveis da região, sinalizando que o risco deixou de ser apenas retórico e passou a ser tratado como operacional.
No plano interno, o Irã enfrenta um ambiente de tensão adicional, com protestos pontuais ainda ocorrendo apesar da repressão do regime. Esse fator doméstico adiciona complexidade ao cálculo estratégico de Teerã, que busca projetar força externa sem abrir espaço para interpretações de fragilidade interna. Ao mesmo tempo, a retórica americana passou a incorporar prazos explícitos para uma decisão, reforçando a percepção de que a janela diplomática está se estreitando.
O resultado imediato desse conjunto de fatores é a reprecificação acelerada do risco geopolítico. Para o mercado global, isso se traduz em maior incerteza sobre rotas marítimas no Golfo, elevação dos custos de seguro e frete, maior cautela na programação logística e aumento da volatilidade nos mercados petroquímicos. Ainda que não haja, até o momento, um conflito aberto, a combinação de impasse diplomático, demonstrações militares simultâneas e envolvimento de múltiplos atores regionais cria um ambiente no qual qualquer incidente pontual pode gerar efeitos desproporcionais.
Em síntese, o atual cenário não é fruto de um evento isolado, mas do acúmulo de disputas não resolvidas entre Washington e Teerã, agora potencializadas por uma estratégia explícita de pressão e dissuasão. O equilíbrio entre diplomacia e força tornou-se mais frágil, e o Oriente Médio volta a operar sob um nível elevado de risco sistêmico, com impactos que ultrapassam a esfera política e alcançam diretamente a dinâmica logística, energética e industrial global.
Autoral GlobalKem | 20 de fevereiro 2026
