Demanda

Concentração russa nas importações de ureia reforça risco geopolítico e pressiona custos da indústria química

As importações brasileiras de ureia em janeiro de 2026 permaneceram concentradas em poucas origens, refletindo a continuidade do padrão observado em 2025. No ano anterior, a Rússia respondeu por cerca de 84,0% do volume importado, consolidando-se como principal fornecedora. Em janeiro de 2026, apesar da redução na participação relativa, a Rússia manteve-se como a principal origem, concentrando 30,8% do volume total, seguida por Argélia (23,0%), Irã (14,8%), Bahrein (11,7%) e Venezuela (6,6%).

O fato de 69,7% das cargas ainda não terem concluído o processo de chegada ao país vai além de uma questão logística isolada e ocorre em um momento de aumento da demanda interna por ureia. Em janeiro, as fábricas de fertilizantes da Bahia e de Sergipe retomaram suas operações, ampliando a produção nacional de ureia e amônia, fator que elevou a necessidade de insumos e de coordenação logística. Embora essa retomada fortaleça a oferta interna, a produção ainda se encontra em fase de ajuste, enquanto o mercado internacional permanece pressionado. Nesse contexto, a maior demanda por ureia agrícola reduz a disponibilidade do produto no mercado, o que impacta preços e prazos também para a ureia industrial, já que ambos os segmentos competem pelas mesmas plantas produtivas, estoques e rotas logísticas das matérias primas.

A estrutura das origens reforça a exposição do Brasil a riscos geopolíticos. Além da Rússia, volumes relevantes em janeiro envolveram Irã e Venezuela regiões diretamente afetadas por tensões com os Estados Unidos. Entre 12 e 16 de janeiro, os preços futuros da ureia nos EUA avançaram cerca de US$ 15/t, enquanto no Brasil as cotações acompanharam com alta moderada, refletindo o aumento do risco percebido sobre oferta e logística no Oriente Médio e na América do Sul.

A situação venezuelana acrescenta incerteza ao cenário global de ureia. No início de janeiro de 2026, uma operação militar liderada pelos Estados Unidos aumentou o prêmio de risco nos fretes para carregamentos de ureia nos terminais venezuelanos, pressionando os custos de exportação e a disponibilidade de embarques. Embora os preços FOB da ureia venezuelana tenham sido reduzidos em resposta ao aumento de custos logísticos, a própria volatilidade dos fluxos portuários elevou o custo de transporte e gerou dúvidas entre armadores e traders sobre a regularidade das cargas futuras.

Mesmo com o volume venezuelano representando uma fatia menor das importações brasileiras, a proximidade geográfica e logística faz com que qualquer pressão adicional sobre as operações portuárias impacte diretamente as cadeias de suprimento regionais, aumentando o prêmio de risco nas cotações e elevando a competição por capacidade de transporte já tensionada no início do ano.

Autoral GlobalKem | 05 de fevereiro de 2026

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